Magias


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Ele ainda há gestos, pessoas que nos conseguem, estupidamente, surpreender, no nosso mundo.
Enquanto que num mundo normal, tal seria visto como super normal, por cá, olhamos de lado, desconfiamos, olhamos de soslaio,fazemos de conta que não é nada connosco.

Quem diz que não evita o desconhecido que por si chama no meio de uma rua qualquer, infelizmente, não diz verdade...

Hoje fui surpreendida por uma senhora, já com os seus 80 anos, figura frágil, cara contadora de estórias, olhos doces, que se fazia acompanhar de um pedaço de papel já gasto. Parou ao pé de mim, estendeu-me a mão e aquele papel. 
Estando eu à porta  de um café ao lado de uma farmácia, primeiro pensamento em fracções de segundo: olho, não olho, evito ou não,  já me vai pedir qualquer coisa. Raios. E eu a doces velhinhos que me pedem dinheiro e comida e atenção eu não resisto...

A senhora de voz doce surpreende e só quer saber quanto gastou em compras na moeda antiga... Estupidifico. Reformulo. Confirmo. Escudos?! Respondo, 960$00.
Pimba. Estalada na cara. E daquela invisível e bem dada. Bem feito. 
Despede-se com um seja feliz, mais um super e humilde agradecimento e um desejo sentido de bom ano.
Raios. Sentimento de culpa.

Há dias, alguém que me é próximo ao descer uma rua, deparou-se com uma das figuras da cidade de Almada. Daquelas que já são conhecidas por todos pelas suas excentricidades e a quem já ninguém liga nenhuma, enfim, em todas as cidades existem. Rapazola bem apessoado, louro, olho azul, matulão, adivinha-se ser de um outro país. Sentado no passeio maio que atrapalhado, chama, pede ajuda.

E lá vem aquele primeiro pensamento das fracções de segundo: olho, não olho, evito ou não, já me vai pedir qualquer coisa. Raios.
Mas lá vai. A ajuda afinal era para desapertar uma daquelas pulseiras tipo as que se trazem de Salvador da Bahia... Estava apertada e com uma mão só a tarefa é quase impossível. Vai... Siga... Nova estalada...

O rapazinho agradece, a pessoa sorri, vira costas, continua a sua vida descendo a rua. Segundos adiante ouve passos em correria e aquela voz com sotaque: Senhora! Senhora! Ela pára. 
O estrangeiro estende os braços com as mãos em concha como que se guardasse ali um dos seus maiores tesouros e o quisesse partilhar com quem, para variar, o ajudou.

Abre as mãos, dá um pequeno sopro como que para a magia acontecer, e diz:
- Para si...

E o nosso mundo, ali, naquele segundo, foi, por momentos, um Mundo Normal.

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