Archive for outubro 2012
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Num dia de Fevereiro há onze anos atrás, depois de realizares o sonho de uma vida, de pisar a arena de um circo, escreveste à mãe:
" Foi mágico, lindo! As luzes, o público, o cheiro, a adrenalina a saltar pelas veias, os aplausos!
Mas porque é que ao fim tenho de ir receber o meu cachê?
Provocar risos, sorrisos, alegria nas pessoas e em mim, terá preço? Qual será o preço de uma gargalhada? Será o prato de comida que vou comer mais logo? Mas então porque é que eu tenho de dar dinheiro por um prato de comida se é desse prato de comida que eu preciso para fazer gargalhar e gargalhar também, para viver e poder andar, para poder respirar bem fundo o ar que ainda não pago (...)?"
Tu és isto...
Viveste dessas gargalhadas, dos risos e dos sorrisos que te deram, das lágrimas e dos momentos especiais que partilhaste por esse mundo fora.
E, por mais que me custe, é nesse gargalhar, nessas memórias boas que criaste em cada uma daquelas pessoas que vais continuar a viver...
Tu não ias gostar que eu postasse isto e eu sou egoísta por te querer aqui outra vez...
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Este foi dos nossos primeiros encontros e deve ter sido amor à primeira vista. Não me lembro...
Éramos dois miúdos giros não éramos?
Tínhamos a nossa cumplicidade, a nossa felicidade e (algumas) histórias das quais não me lembro..
Partilhámos corridas de carrinhos nas fileiras do chão de tacos cá de casa, brincámos com o pião, saltávamos de baloiços e subíamos às árvores. Sabia que se caísse no chão, tu amparavas-me. Brigámos. Tu batias-me e eu tentava dar luta. E perdia.
(lembras-te de uma vez nas Caldas que tu querias andar no baloiço que o pai fez para nós mas eu estava lá toda contente? Deste-me uma safanada e fui a correr atrás de ti. Esqueci-me que no meio havia uma porta de vidro e zás! Comigo porta adentro e tu a rir do outro lado? Guardo a cicatriz num braço. Estúpido.)
Íamos de castigo para o quarto e, porta com porta ali voltávamos a brincar outra vez como se nada tivesse acontecido. Foste o Sandokan e eu a sua namorada, foste o Zorro e eu bailarina, foste palhaço e eu fada, crescemos e eu continuei a ser eu própria e nunca mais largaste o nariz vermelho.
Crescemos e a vida deu conta de nós arrastando com ela os sonhos. Da nossa cumplicidade e ingenuidade quando um acenar de cabeça chegava para fazermos uma maldade qualquer ao J., quando éramos chamados à responsabilidade em trio e nunca tinha sido ninguém a fazer a asneira.
Eu que achava que íamos ser crianças para sempre, vi-nos crescer demasiado depressa ao ritmo alucinante que fomos obrigados a viver. E perde-mo-nos algures ali no tempo para nos voltarmos a encontrar uns tempos mais tarde. Pelo meio, sofremos e demos as nossas cabeçadas, discutimos, sofremos e, no fim, descobrimos que, por mais tempo que passasse, nunca tínhamos deixado de nos amar, nunca tínhamos deixado de ser a fada e o palhaço, tínhamos sido sempre, nós dois.
Foste-te embora e agora fazes-me falta. Faz-me falta a nossa cumplicidade que perdemos, as conversas que não tivemos, o abraço, aquele, de nunca demos.
Não te enganes. Tu não foste fácil, assim como eu nunca fui. Tu desatinavas e eu ia logo a seguir, flipava contigo nas mais pequenas coisas. Como ontem a RM me disse tu foste " uma caixa de aguarelas com muitas cores, todas elas muito intensas. Com sabores dos mais doces aos mais amargos" e nem sempre eras fácil, aha! pois que não eras. Mas és o meu irmão, o meu mano velho e mesmo que viesses numa caixa esfarrapada ou forrada a folhas de ouro, aquele olhar da foto e o último que trocámos... Dizem tudo...
Estejas tu onde estiveres, aqui ao meu lado ou a gargalhar com os teus meninos ou em lado nenhum, quero que saibas que tenho um orgulho em ti vezes infinitos e mais além e que não me deves nada meu mano velho, que te amo incondicionalmente e que só tenho pena que não tenhamos tido mais tempo para sermos velhinhos e gozar com as idades um do outro e partilharmos mais estórias de encantar. Queria ter tido mais tempo...
Porque -Te.
Simplesmente, -Te.
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O Dr. (Do)Cinho do Céu deu o seu último espectáculo ontem.
Por entre salvas de palmas e assobios e cantares e mágicas bolas de sabão fez a sua vénia e saiu pela porta da frente. Pedimos bis, um encore, só mais uma, mas na vida não há retorno nem duas vezes. Só uma, é pegar ou largar.
O Zé soube pegar. E disso são prova os inúmeros testemunhos doces e mágicos que tenho ouvido e podido ler. E não há palavras. Não tenho como expressar o sentimento que me invade... Obrigada não chega. Muito Obrigada também não.
Gostava de ter braços gigantes para a todos poder envolver num gigante abraço que desse a volta ao mundo.
Queria ser poeta para conseguir traduzir a imensidão de cores e sentimentos que ficam cá dentro...
Gostava de poder transmitir o amor e a paz e o carinho que sinto mas não sei como...
Queria que o Zé cá estivesse para nos animar com uma palermice qualquer e que com ele trouxesse o Dr. Cinho para vos tocar a alegria e o Côco vos entregar uma daquelas risadas altas... Queria o meu mano velho para o poder oferecer de volta e deixar de lado a saudade que teima em invadir...
Mas não consigo nada disto.
E um simples obrigada, um muito obrigada, não chega...
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A vida não é justa. É verdade e que raio isso não é novidade nenhuma. A vida é a vida e só o que dela fizermos será. Temos opções, ou fazemos com que seja boa, má, ou excelente. Podemos ainda escolher em quem nos queremos centrar, em nós próprios ou nos outros.
O meu mano velho passou por todas as escolhas que podia ter feito, nem sempre foi a melhor pessoa, e nem sempre as escolhas foram as mais certas. Mas sempre, sempre, teve aquela faísca "mete nojo" (como eu lhe dizia), aquele olhar doce e ameninado e aquele sorriso rasgado que fazia com que toda a gente gostasse dele.
Era um tipo tramado. Quando queria embirrar, embirrava a sério, mas quando amava não havia ninguém mais "lambuzento" de amor.
E como soube transmitir esse amor... Aos seus meninos, e menos meninos, enquanto Dr. Cinho do Céu, a plateias cheias de gente e era o Côco, aos seus Amigos quando era simplesmente o JoZé e um simples Bom Diaaa!! chegava para alegrar o dia.
Esse amor, esse carinho eu senti-o hoje na sua última sala, com a sua última plateia, na maior salva de palmas que alguma vez ouvi, enquanto bolas de sabão cheias de sonhos e palavras sobrevoavam a sala embaladas pelas cantigas que se entoaram num misto de saudade e dor e alegria e esperança.
Esse amor e saudade e carinho, eu guardarei para sempre porque me encheu em parte um espaço que até lá sentia vazio.
A todos os que têm o Zé no coração e que foram "atingidos" por aquele dom especial que só ele tinha, eu só posso agradecer por me encherem de orgulho pelo mano velho que tenho, por amenizarem a saudade que já sinto.
Guardem-no nas vossas memórias pelo homem com olhar de criança e alma de palhaço que é...
Obrigada a todos.
Obrigada Zé. -Te mais do que imaginas...
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Clap clap e que se levante a audiência para receber a tua vénia.
Neste circo que é a vida, tu que nem sempre a soubeste viver sorrindo, distribuíste sorrisos sem nada pedir em troca.
Entregaste-te nas mãos de crianças e deste-lhes o prazer da vida.
Partilhaste-te na arena e em troca, recebeste risos rasgados, sinceros.
Deste tudo de ti a quem só precisava de um carinho, de um abraço, de um sorriso.
Partiste hoje sem querer, com medo do que te esperava.
Deixas a minha vida e a quem contigo teve o prazer de privar, mais pobre, mais sisuda, mais triste.
És o meu mano velho que me enche o peito de orgulho.
És o meu mano velho, sempre.
-Te.