" Outono é bailado.
Desprendeu-se agora, do alto daquela árvore
secular, a folha de Outono. Amarelecida, no tom de oiro velho que o Sol
lhe deu, com um ar cansado e cheio de rugas, duma vida já vivida, vai
iniciar o baile. Vem livre, em evoluções e piruetas, ao som da música da
brisa suave que sopra em surdina. O tema é Ícaro e o seu sonho. É
livre. Voa pelo espaço em voo efémero, na realidade dos sonhos já
sonhados, que a deitam por terra e a torna escrava dos passos que
passam.
Vai alto o Outono. A brisa suave é vento agora. A música
já não soa em surdina. Tem tons de estridência e lamuria, sopra gritos,
num arrepiar de silvos. O proscénio do céu é iluminado, em
feérie
de rasgados clarões intermitentes, que respondem ao ribombar dos
timbales da orquestra do tempo, dos elementos. As árvores, alinhado
corpo de baile, despiram já os seus fatos garridos, estão nuas agora. E,
nas evoluções dos braços e dos troncos, nas flexões que o ritmo impõe,
vai começar o
ballet.
O Outono é a vida melancólica, mal
aquecida por um Sol mais baixo que já não queima. É repouso de sonhos
cansados, de ledas e doces recordações. É sossego, paz, tranquilidade, e
onde o cântico final das vindimas soa como o último abencerragem da
alegria.
Trivialidades de uma vida efémera, que se repete, recolhidas por esta folha de Outono que eu já sou.
As
mãos que entrelaçávamos, naquele envelhecer bonito, com a confiança da
vida que havíamos deixado em boas mãos, decrépitos, de sorriso parvo na
cara, feitos um para o outro, incomodados com a ausência dos beijos que
trocávamos às escondidas, abraçados naquele por do sol que pintava toda a
paisagem de dourado.
Os rios corriam mais lentos, pintados de
vermelho pelo horizonte, quando brincávamos naquela terra molhada,
aquele cheiro intenso a fertilidade, mergulhados nas memórias do verão
que já se esquecia, longe, dos risos abandonados naqueles areais,
escondidos nas dunas do teu corpo, e os teus olhos e os meus, risonhos.
O
vento que sopra frio e faz ranger os ossos, silva pelas frestas das
janelas e portas, preso em meditações, naqueles longos domingos
solarengos, do Sol quente que arde por dentro, que faz corar as folhas,
tingidas pelo vermelho dos teus lábios, ou amarelecidas nas saudades que
rasgam as nuvens baixas que passam. As andorinhas já não pairam por
cima das nossas casas, e a orquestra arruma os seus instrumentos, tudo
se resguarda, espera pelo frio, naquelas demoradas noites que nos
encurtam os dias.
Vai alto o Outono, velho sábio, agasalhado em nós."
J & Joaquim Teixeira,1994
(
O Outono não vai alto, pelo contrário, ainda se faz sentir aquela brisa de verão, mas o meu avô, meu segundo pai, faria hoje uns espantosos 96 anos. Assim como faz anos hoje que o vi e abracei e beijei pela última, embora mágica e extraordinária vez, com o coração cheio de promessas que não cumpri. O meu Joaquim Teixeira escreveu, o meu mano J colaborou. Eu publico. Porque amo.
Porque sim. )