Archive for setembro 2011

Levantar cedo...


.


... E cedo erguer não dá saúde nem faz crescer. Pelo menos é isso que sinto sempre que tenho de me levantar quando ainda o dia não ameaça nascer.
Mas lá que proporciona nasceres do sol fabulosos, lá isso...

Crónica de Outono


.

" Outono é bailado.

Desprendeu-se agora, do alto daquela árvore secular, a folha de Outono. Amarelecida, no tom de oiro velho que o Sol lhe deu, com um ar cansado e cheio de rugas, duma vida já vivida, vai iniciar o baile. Vem livre, em evoluções e piruetas, ao som da música da brisa suave que sopra em surdina. O tema é Ícaro e o seu sonho. É livre. Voa pelo espaço em voo efémero, na realidade dos sonhos já sonhados, que a deitam por terra e a torna escrava dos passos que passam.

Vai alto o Outono. A brisa suave é vento agora. A música já não soa em surdina. Tem tons de estridência e lamuria, sopra gritos, num arrepiar de silvos. O proscénio do céu é iluminado, em feérie de rasgados clarões intermitentes, que respondem ao ribombar dos timbales da orquestra do tempo, dos elementos. As árvores, alinhado corpo de baile, despiram já os seus fatos garridos, estão nuas agora. E, nas evoluções dos braços e dos troncos, nas flexões que o ritmo impõe, vai começar o ballet.

O Outono é a vida melancólica, mal aquecida por um Sol mais baixo que já não queima. É repouso de sonhos cansados, de ledas e doces recordações. É sossego, paz, tranquilidade, e onde o cântico final das vindimas soa como o último abencerragem da alegria.

Trivialidades de uma vida efémera, que se repete, recolhidas por esta folha de Outono que eu já sou.

As mãos que entrelaçávamos, naquele envelhecer bonito, com a confiança da vida que havíamos deixado em boas mãos, decrépitos, de sorriso parvo na cara, feitos um para o outro, incomodados com a ausência dos beijos que trocávamos às escondidas, abraçados naquele por do sol que pintava toda a paisagem de dourado.

Os rios corriam mais lentos, pintados de vermelho pelo horizonte, quando brincávamos naquela terra molhada, aquele cheiro intenso a fertilidade, mergulhados nas memórias do verão que já se esquecia, longe, dos risos abandonados naqueles areais, escondidos nas dunas do teu corpo, e os teus olhos e os meus, risonhos.

O vento que sopra frio e faz ranger os ossos, silva pelas frestas das janelas e portas, preso em meditações, naqueles longos domingos solarengos, do Sol quente que arde por dentro, que faz corar as folhas, tingidas pelo vermelho dos teus lábios, ou amarelecidas nas saudades que rasgam as nuvens baixas que passam. As andorinhas já não pairam por cima das nossas casas, e a orquestra arruma os seus instrumentos, tudo se resguarda, espera pelo frio, naquelas demoradas noites que nos encurtam os dias.

Vai alto o Outono, velho sábio, agasalhado em nós."

J & Joaquim Teixeira,1994

(O Outono não vai alto, pelo contrário, ainda se faz sentir aquela brisa de verão, mas o meu avô, meu segundo pai, faria hoje uns espantosos 96 anos. Assim como faz anos hoje que o vi e abracei e beijei pela última, embora mágica e extraordinária vez, com o coração cheio de promessas que não cumpri. O meu Joaquim Teixeira escreveu, o meu mano J colaborou. Eu publico. Porque amo. Porque sim. )

O Jardim dos outros


.



Alberto João é, enfim, o Alberto João. Comparável apenas a ele próprio e a mais ninguém.
Muito já se escreveu e mais ainda se vai imprimir sobre a pouca vergonha que se passa no "Jardim" do Atlântico, pelo que não me irei prolongar muito.


Vergonhoso não é só aquele que rouba mais que o equivalente a uma nova ponte Vasco da Gama. Sem vergonha é também aquele que, mesmo assim, o irá sentar outra vez na cadeira do poder  daquele arquipélago e quem não o destitui do cargo que ocupa já há uma batelada de anos.


Fazendo a analogia, talvez palerma, mas sou da opinião que, se um cãozinho vier esgravatar no meu jardim fazendo buracos sem fundo com as unhacas bem afiadas, leva uma pantufada. O Alberto João esgravata o jardim do povo e do povo leva uma pancadinha nas costas e toca a andar para o próximo mandato e sacar mais uns cobres para si e a sua maralha.
Mas não há ninguém que lhe dê uma lambada à valente e o mande pregar em outra freguesia?! Não.


Talvez seja ignorância minha, mas então se, numa empresa de um Mundo Normal alguém que a gere dá prejuízo e gasta a olhos vistos sem dar o devido cc à casa mãe, se despede e com uma justa causa valente, ora pois então por que é que ninguém se chega à frente e destitui o sr. Alberto João do seu cargo?!

11 de Setembro


.

Num mundo normal, eu não escreveria isto num dia como hoje. Quiçá me desse para falar por aqui de qualquer coisa muito mais corriqueira como a manha do vizinho, as escolhas politicas palermas que se têm estado a tomar neste país, etc., ou até sobre nada.

Mas não. Faz hoje dez anos que uma cambada achou por bem tomar de assalto uns quantos aviões e atirá-los sem mais nem ontem contra uns quantos edifícios de renome nos Estados Unidos da América.
E eu, à semelhança de tantas outras pessoas lembro-me exactamente do que estava a fazer há dez anos, com quem estava e onde estava. O que é estranho, considerando que não me recordo do que fiz há uma semana.
Assisti em directo ao segundo embate na Torre Norte do World Trade Center. Ao longo da tarde, recebi e-mails, imagens, fotos do que se ia passando na velha Nova Iorque. E chocou-me, como certamente a muitos, ver aqueles que hoje já não são, implorar pelas suas vidas acenando lenços brancos que se destacavam por entre o fumo negro, ver aqueles que acharam que saltar para a morte seria a melhor opção, ouvir o som ensurdecedor do tombar dos edifícios por entre os gritos de quem assistia em fuga. E depois, o silêncio. A poeira, as cinzas, dizem, o cheiro a morte. Impressionaram-me as despedidas telefónicas, a felicidade do reencontro de quem se julgava desaparecido, a glória do salvamento que aconteceu apenas vinte vezes. Tal como ainda hoje me emociona rever todos esses momentos...

Nova Iorque é diferente. Vive diferente, sente diferente. Tem uma batida sua, um swing só seu, talvez por ser uma mescla de todo o mundo, onde todas as culturas, todos os países, têm mais do que um representante...

E naquele dia morreram 2.749 pessoas, cinco das quais portuguesas. Cidadãos de 87 países diferentes. Muito embora o atentado e aquele dia sejam relembrados e vividos de forma diferente culturas afora, o que sentem hoje, e sentiram na altura, é certamente o mesmo.

Oxalá não me torne a lembrar de outro dia assim.

Parabéns.


.


Assim eu te via nos teus quarentas com olhares de meninice.
Olhos impossíveis de desenhar, que tudo escondiam menos a alma que te doía, esse bigode farfalhudo em traços enrolados que optaste por transformar em barba uns anos mais tarde, o meu nariz era mais o teu e não esse tão rígido.
Assim eras tu aos meus olhos de filha única e nunca vou esquecer o momento em que te "vi".

Hoje farias 69 anos.
E se bem nos conheço, tal número seria alvo da minha galhofa para ti. Pelos motivos óbvios e porque para o ano entrarias nos grandes setenta. E haverias de sorrir com a minha palermice, gozarias comigo, e iríamos partilhar o olhar como só nós dois fazíamos...

Não me lembro do teu último aniversário. Talvez porque, apesar de tudo o que passámos, sempre optámos por levar a vida por garantida sem quase nunca saber aproveitar o dia presente, preocupando-nos sempre mais com o passado sem olhos no futuro, esquecendo-nos que o agora já foi há pouco e que o amanhã, não tarda é já ontem. E a vida é tão breve...

Se tivéssemos tido mais tempo, provavelmente faríamos tudo igual, diríamos e sentiríamos o mesmo. Mas criaríamos novas lembranças, novas memórias e essas, sei, nunca seriam demais.

Hoje era e será sempre o dia do teu aniversário.

E sei que já to disse antes, mas fazes-me falta, sabes? Tanto, tanto...
Parabéns Pai!

Era uma vez...


.

... a Rita e a sua boneca Rafaela.

A Rita era uma miúda como tantas outras, como eu já fui, que um dia levou um dos seus maiores tesouros para um passeio, para mais uma daquelas aventuras como só elas duas sabiam viver.
Naquela tarde, por entre brincadeiras sem fim, como que se quisesse arriscar a vida a solo, a boneca Rafaela, largou a mão, acabando por se perder em mãos alheias.

E a garota chorou e berrou e chamou e correu atrás de bandidos sem rosto. Nada. E á falta de resposta, a Rita fez o que qualquer adulto faria e dirigiu-se à esquadra mais próxima, quis apresentar queixa contra aqueles que, com um casado azul vestido, tão malvadamente lhe furtaram a sua amiga de sempre, o seu maior bem.

Por momentos, os senhores policias estranharam tamanha insistência e persistência, mas para que pudessem ser enviados na cruzada que para ela era mais importante que tudo, era preciso que a sua mãe, dona do seu castelo, pudesse dar o seu aval.

E assim foi. 
Momentos após a rainha mãe depositava naqueles cavaleiros de escudo ao peito e pistola embainhada, a sua confiança, e a princesa Rita a sua esperança em como o resgate da Rafaela ia ser bem conseguido. Dormiria com toda a certeza melhor nessa noite sabendo que todas as lanternas estariam apontadas para onde quer que a boneca tivesse sido levada.

E a Rafaela continuava sem aparecer. Certamente estaria já em uma outra casa levando a felicidade a qualquer outra menina. E a Rita, triste.

Sem noticias boas para dar, aqueles cavaleiros juntaram-se e ofereceram àquela menina Rita uma outra Rafaela. Não que esta substitua a outra. De todo. A primeira será sempre a número um e todos os sonhos que com ela foram vividos serão sempre, para sempre, parte integrante de cada um.
Com esta, serão construídas novas lembranças, novas brincadeiras, espantosas aventuras, inimagináveis viagens, histórias intermináveis.

E claro, viveram felizes (não vou pôr o para sempre porque já todos sabemos que a Rafaela 2 vai acabar fisicamente numa caixa perdida algures no tempo).

É bom saber que ainda há estórias que acabam em bem e que ainda há gente de coração grande.