Por cá, neste nosso mundo pouco normal, existe o hábito de se dizer sempre que alguém morre, que quem perdeu, ganhou uma estrela no céu, que se ganhou mais um anjo no céu que olhará por nós, que a pessoa estará melhor e nós pior porque cá ficamos sem eles, que descanse em paz.
Nada disso.
Quem perde alguém que ama não quer saber de anjos nem de estrelas brilhantes que ofuscam. Quem é perdido não precisa de descanso, quem perde é que fica com a alma cansada.
Quem perde alguém, ouve quem repete aquelas palavras, entende que pouco ou nada se possa dizer, mas não as assimila, porque não as aceita como reais, nem como certas.
Quem perde alguém, não ganha nada. Só perde. Perde o riso, o sorriso, a voz que se havia tornado corriqueira, os conselhos que gostava de ouvir e as criticas que ajudavam todos os dias, as palavras, as discussões. Perde a retribuição do Amor, essencial no seu dia a dia. Perde quem ama, o seu alicerce.
Todos os dias morre alguém. Todas as horas morre alguém que alguém ama.
Todos os dias alguém perde um pouco de si. Perde o seu chão.
Todos os dias alguém tem saudade de quem não tem mais.
Há sempre saudade. Sem anjos, sem estrelas.
Há espaços vazios.
Uma alma vazia.
Uma realidade diferente.
Um sonho que não pode ser mais vivido.
Flores que murcham.
Uma dor que desconhecíamos poder sentir.
Hábitos que deixam de existir.
Há sempre saudade. Sem anjos, sem estrelas.
E mesmo assim, há-que continuar.
A vida mantém o seu curso. O riso há-de aparecer, o sol brilhará, e o caminho que se achava escuro é iluminado a cada dia que passa. A dor desvanece e o espaço outrora vazio, enche-se de novas esperanças.
Mas a saudade... Ah a saudade... Essa ficará para sempre.
