Archive for novembro 2012

Já te disse?...


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Um mês.
Um mês e um dia.
Um mês e um dia e 6 horas.
Ainda conto.
Ainda conto os dias. Ainda dói. Ainda conto contigo. Ainda sinto a tua falta. Ainda acho que estás aqui ao lado em silêncio. Ainda me parece ouvir-te. Ainda te vejo. Ainda te sinto. Anda te falo. Ainda choro. Ainda é difícil. Ainda dói.
Só não sonho contigo a dormir e não passa um dia ainda em que não pense em ti. Será que algum dia isso vai acontecer?...
Talvez seja a altura em que tenho de te deixar ir à tua vida - vamos ficar bem. Vou ficar bem. Tenho de me convencer.
Convencer-me que vou ficar bem vou ficar bem vou ficar bem. Será que se o disser vezes suficientes passo a acreditar?
Sim, eu vou ficar bem vou ficar bem vou ficar bem vou! Vou a todo o lado e estás lá, bem presente, talvez como nunca tenhas estado antes...

Já te disse que tenho saudades tuas? Que já é hora de voltares? Que te quero aqui? Já to disse? Que sinto a tua falta? Que não te consigo tirar daqui de dentro? Já te disse que te adoro? Já te disse que te quero? Já te disse que não queria que morresses? Já te disse que te amo? Já te disse que a tua falta me mata e me corrói e me destrói a cada dia que passa? Já te disse que estou cansada e farta de chorar e de sentir o vazio? Já te disse que quero gritar de raiva por te teres ido embora assim? Já te disse que me arrependo? Já te disse que queria ser velhinha ao teu lado? Já te disse que te invejo? Já te disse que gostava de ser a do meio? Já te disse que não quero ser mais velha que tu? Já te disse que queria ser feliz contigo? Já te disse que te amo?
Já te disse...?
Já te disse que tenho de acreditar que tudo vai ficar bem quando ainda não acredito que seja capaz de acreditar nisso? 
Porque ainda conto os dias, as semanas, as horas de todos os minutos que não estás aqui.
Volta... Dá-me um sorriso. Uma música. Um grito, discute comigo qualquer coisa... Qualquer coisa... Volta...

Sim, eu vou ficar bem. Eu hei-de ficar bem...

Villa Algarve, Moçambique


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O meu pai escreveu este texto há já muitos anos atrás.
O meu irmão partilhou-o no seu blogue há uns meses.
Eu, partilho-o agora. Quando vozes cada vez mais altas dizem que no tempo do Salazar é que era bom e que a polícia de agora é pior que a PIDE.
Partilho-o porque sim, porque há estórias que precisam de ser lidas e ouvidas por alguns, mesmo que por poucos. 


" Também nós portugueses, possuímos na nossa História de tortura e medo, uma Vila... no Chile de Pinochet era a Vila Grimaldi e no Portugal Colonialista de Salazar e Caetano era a Vila Algarve em Lourenço Marques, Moçambique. 

E é necessário não esquecer. 

A responsabilidade para com os nossos contemporâneos e as gerações vindouras força-nos a recorrer à memória, à materialização do passado. A memória condiciona os nossos actos presentes constituindo aprendizagem e experiência, assegurando assim a continuidade de um povo enquanto comunidade social e política. 

Em Portugal, tal como no Chile, tem sido feito, muito lenta e subtilmente o branqueamento ou o olvido de momentos importantes da nossa história. E no entanto os povos necessitam recordar e conhecer os erros cometidos para que não se repitam. 

Talvez outros "altos valores" se levantem para que se justifique o olvido, talvez as ideologias tenham morrido —, e a moral também. 

Mas a PIDE existiu e torturou e seviciou e matou. 

No dia 18 de Dezembro de 1961, tinha então 19 anos, fui preso pela PIDE e conheci então a Vila Algarve. No rés-do-chão muitas secretárias e agentes escrevendo à máquina e, num canto escondido, um pequeno compartimento com 11 ladrilhos de um lado e 18 de outro, e uma janela pequena que dava para um jardim, para as vivendas vizinhas na Av. Fernandes Tomaz. E não creio que os vizinhos da Vivenda Algarve não ouvissem os gritos de dor contida (porque cada grito era uma vitória da PIDE). 

Aí comecei a conhecer a tortura da estátua sem dormir. Conheci a pancadaria, as toalhas encharcadas e enroladas, chicoteando-me. Os insultos à família, aos amigos, e a mim próprio, dos quais o menor não foi o de traidor à Pátria, anti-português, etc. Os calcanhares rebentaram pelo inchaço dos pés devido à acumulação de sangue por estar de pé. Mas também me deixavam sentar para comer. E também para me mimosearem com gotas de água quente e fria alternadamente na cabeça. Porque durante esses dias chegou ao conhecimento dos PIDES a confirmação da queda da GOA, a Índia Portuguesa, imaginem, o seu furor redobrou de intensidade. 

Talvez porque quisessem passar um Natal em paz com as suas consciências, interromperam este período de interrogatório em 24 de Dezembro, véspera de Natal. Enviaram-me para uma cadeia da qual não recordo o nome (sei apenas que ficava próxima do Bairro Sommerchild). 

Recordo: a Maria João Seixas que recentemente algures numa entrevista disse que não era uma mulher de coragem foi a primeira pessoa que me procurou na cadeia e enfrentou os guardas prisionais para que me entregassem 1 bolo (era dia de Natal) e algumas revistas. Mais tarde, observei no exterior da cadeia quem me procurava: o Fernando Carneiro (ex-jornalista de "A Capital", creio que agora funcionário do ICEP) e o Jorge Pais (já falecido); e o Sebastião "Cozinheiro", o Afonso Muxira, o Salomão Manjate e tantos outros, até que o privilégio de ter uma cela com vista para a rua me foi cortado por vias de novo interrogatório ou "visita" à Vila Algarve. 

No dia 1 de Janeiro de 1962 recomeçaram as sevícias. Foram mais oito dias de tortura. Sem dormir. Com alucinações. Paredes que opavam. Que surgiam longínquas. Plenas de insectos. E pancada. Insultos. Traidor à Pátria. Simulacros de morte com uma pistola cujo percutir batia em seco. Pés inchados. Testículos quadruplicados de volume devido aos pontapés que me davam por detrás quando me encontravam no chão, enroscado sobre mim mesmo, na posição fetal. Durou oito dias este tormento. 

Ainda em Janeiro, mas no fim do mês — não recordo a data — voltei a visitar a Vila Algarve. E tudo se repetiu. Mais oito dias. Cair no chão por sono, era punido com mais pancada. Encostar-me à parede, por cansaço, sono ou inconsciência, era punido com mais pancada. Cenas que se repetiam. O corpo já não me doía. Deixei de ouvir do ouvido esquerdo. Finalmente desistiram. 

E que pretendia a PIDE obter com os seus interrogatórios? 

Quem tinha sovado um informador (negro) deles no dia 16 de Dezembro. Fui eu, o Fevereiro e o Rui Nogar. 

Quem me tinha escrito um discurso que pronunciei na Associação Africana em Novembro de 1961 em que advoguei a independência de Moçambique? Insistiam que tinha sido o José Craveirinha quando na realidade ninguém o escreveu... foi espontâneo. 

Quem tinha escrito e divulgado vários panfletos na zona do porto de L.M. e na cidade de Carriço? Fui eu, Nogar, Jorge Pais, Fernando Cordeiro, Craveirinha. 

Quem tinha "pinchado" o exterior e o interior do Liceu Salazar com palavras de ordem sobre a independência? Quem pertencia ao MODEMO (Movimento Democrático de Moçambique)? Qual a influência do Partido Comunista Português no Modemo? Que relações tinha eu com o MODEMO, o PCP e o COREMO (Comité Revolucionário de Moçambique)? Ainda não sei como me relacionaram com o COREMO pois éramos apenas 10 pessoas. Tínhamos assaltado (não matámos; apenas uma surra) duas patrulhas da PSP e roubado duas pistolas. E espalhado (poucos) panfletos em língua ronga na cidade de Carriço, que passei no copiógrafo do Cine-Clube de Lourenço Marques, do qual era sócio e colaborador com chave, o que me permitia acesso à noite. 

Queriam saber as actividades políticas ou influências do MODEMO no Núcleo de Arte (de que era sócio) e no Cine Clube. Queriam saber quem me abrira as portas do jornal "A Voz de Moçambique" para que eu pudesse lá escrever. Queriam saber quem coordenava numa página no jornal "Notícias" escrita pela juventude denominada "O Despertar", sub-titulada "O Despertar da Juventude de Moçambique". Queriam saber, enfim, quais os meus contactos com o PCP e a Juventude Comunista quando ainda estava em Portugal. 

Historiando um pouco, direi que o COREMO foi fundado por mim, pelo Cozinheiro Sebastião, por dois ex meus serventes, o Muvira e o Manjabe, ao qual se juntou depois um outro negro que trabalhava na Rádio Naval, natural de Manjacaze e que adoptou como pseudónimo. Tudo começou quando o meu patrão chamou preto ao cozinheiro Sebastião e ele respondeu: "Não me chame isso porque preto é carvão e carvão é uma coisa; eu não sou uma coisa, sou negro". Depois disso conversámos mais e avançámos. Depois da minha expulsão pouco mais sei. Que cresceu. Que se refugiou na então chamada Rodésia, hoje Zimbabwé. Não sei se conservou o núcleo original. Sei que mais tarde integrou a FRELIMO assim como outros movimentos; a FRELIMO era um aglutinador de vários partidos daí se chamar Frente de Libertação de Moçambique. Devido, porém, à demasiada sujeição da FRELIMO aos interesses soviéticos, a COREMO abandonou a frente; foi considerada traidora pela Frente mas a COREMO abriu uma nova zona de combate às tropas portuguesas na região de Tete enquanto a FRELIMO estava restrita ao Norte, província de Cabo Delgado. Quando estava na Bélgica em 1967, soube da morada deles, escrevi colocando-me ao dispor deles para o que fosse necessário, inclusive combater ou mesmo ser instrutor militar. Responderam-me com muita consideração mas objectavam que outros que não a direcção veriam mal um branco a combater ao lado deles, e que instrutores tinham chineses que eram suficientes. Mas que lhes podia ser útil na Europa para prestar apoio diplomático (de que estavam muito carenciados porque era enorme o peso da FRELIMO) e logístico (para auxiliar qualquer dirigente ou estudante de passagem pela Europa). Respondi imediatamente (duas vezes até) pedindo credenciais e notícias sobre o núcleo inicial e fiquei sem resposta. Hoje, ao que me consta, o COREMO não, ou pelo menos não concorreu às eleições que houve entretanto em Moçambique. 

Finalmente recebi a visita de meus familiares. Não podia explicar-lhes a razão das crostas de feridas que tinha no rosto. Minha mãe, que em Novembro me tinha negado autorização para fumar, levou-me cigarros. Enquanto tive sinais de violência no corpo permaneci numa cela sozinho. Era grande a cela (4x4). Sabia que o Virgílio de Lemos estava também solitário na cela mas esta mais pequena (creio que 2x4). O Dr. Agostinho Ilunga, que a polícia sul-africana prendeu em Durban a mando da PIDE, estava também solitário. 

Depois (Fevereiro/Março de 1962), chegou uma grande vaga de prisioneiros naturais da região de Mocímboa da Praia, Palma, Montepuez, Ibo. Para resumir: de toda a região da etnia "muârm". Foram presos porque se juntaram na praia, a "coberto" de uma cerimónia religiosa maometana para festejarem a independência do então chamado Tanganica (creio que a 7 ou 9 de Dezembro de 1961). E, na prisão, se dormíamos quatro em cada cela de 4x4 metros, passámos a dormir 16, sem camas, no chão, sobre esteiras. 

Com 16 pessoas na mesma cela era raro o dia em que um de nós não fizesse uma viagem até à Vila Algarve. O horror era o regresso quando víamos o estado físico e mental em que eles regressavam. 

Ainda voltei mais vezes à Vila Algarve. Primeiro, para me obrigarem a assinar três depoimentos que eu teria feito durante os interrogatórios: ligavam-me ao José Craveirinha que me teria dado o discurso que espontaneamente pronunciara na Associação Africana; ligavam-me ao P.C.P. porque receberia ordens de Wagner Russel, ex-membro do Comité Central do P.C. então residente em Lourenço Marques, para imprimir certas directivas nas associações a que estava ligado ("Cine-Clube" e "Núcleo de Arte") e na página literária publicada no "Notícias", o "Despertar"; ligavam-me também ao Dr. Almeida Santos (Oposição Democrática) por vias de uma entrevista que lhe fiz a propósito das eleições de Novembro de 1961 e da abolição do Estatuto do Indigenato que terá sido ou não publicada no jornal "República". 

Recusei assinar qualquer um dos depoimentos. E houveram mais socos e pontapés. Mantive-me firme. Visitei outra vez a Vila Algarve para me encontrar com o meu advogado Drº Carlos Adrião Rodrigues. Era uma sala plena de sofás. Acolhedora. Repousante. Mas pouco ou nada falei com ele com receio de que estivessem à escuta. Ele é que pagou as despesas da conversação. Em resumo, disse-me que devido ao facto de estar preso há mais de 180 dias iria fazer um  "habeas corpus"; que era a única coisa possível. 

Dias depois, nova visita à Vila Algarve. Agora ao 1º andar. Que luxo. Tapetes. Porcelanas. Que luxo. Fui informado com toda a delicadeza que o Sr. Sub-Director queria falar comigo. Mandaram-me enterrar num sofá. Esperei um pouco. Entrei num gabinete amplo, atapetado e muitas janelas. Aperto de mão que me foi difícil recusar e difícil aceitar — estava estupefacto. 

E então, com palavras melodiosas, cativantes, surgiu o convite para que eu aceitasse integrar o quadro de informadores da PIDE. 

Que me pagariam bem. O dobro do meu salário.
Que me arranjariam uma história plausível para apresentar aos meus amigos.
Que mais ninguém, na PIDE, teria conhecimento que eu era informador.
Que me arranjaria um pseudónimo.
Que só assinaria os recibos do meu trabalho com o meu pseudónimo.
Que só me encontraria com ele.
Que... Que... 

Enfim, todas as garantias de que poderia trair os meus amigos, e trair-me a mim próprio com a maior segurança. 

Quando o primeiro enunciado da conversa foi feito, respondi logo que não... "mas espere, deixe-me acabar".
— "Porque se não aceitar esta proposta irá ser expulso de Moçambique e será entregue em Lisboa ao Tribunal de Aplicação de Penas onde é condenado pelo menos a 3 anos."
— "Abandonará a sua família. Não gosta da sua família? Sei que gosta bastante da sua irmã." 

Enfim. Como os factores pecuniários e da segurança não funcionaram, o Sr. Sub-Director dedicou-se à mais reles e baixa chantagem emocional e afectiva. 

Mantive a recusa e o "homenzinho" verdadeiramente agastado reenviou-me para a prisão para eu pensar e que só me dava 8 dias. Na prisão fiquei 1 semana na solitária: "talvez para pensar melhor", sem a presença dos outros presos. 

Inevitável. Mais uma visita à Vila Algarve. Na mesma sala atapetada do andar superior mas não tive direito ao aperto de mão nem convite para me sentar. 

— "A minha posição continua a mesma. A resposta é não." 

Talvez não tenha sequer pronunciado a palavra não. As bofetadas impediram-me. Socos. Pontapés. Os tapetes amorteceram-me a queda. O Sr. Sub-Director não delegava noutros a tarefa de me bater. O Sr. Sub-Director que na primeira conversa se mostrara tão humanitário e tão preocupado com a situação em que ficaria a minha família, deixou cair a máscara com uma simples palavra: "NÃO". 

Depois de mais uma sessão de pancadaria desta vez infligida pelo Sr. Sub-Director, regressei à prisão e nunca mais voltei à Vila Algarve. 

Umas semanas depois fui expulso de Moçambique com a assinatura do Comandante Sarmento Rodrigues. Ainda tentei fugir no aeroporto. Impossível. Estava algemado e corri meia dúzia de passos. Os PIDES que me transportaram ao avião da Força Aérea Portuguesa queriam que eu fosse algemado no avião. Impô-se, porém, veementemente o Oficial que comandava o avião. Fui excepcionalmente bem tratado pela tripulação do avião mas, durante a escala em Luanda, a PIDE esperava-me e lá fiquei nas suas instalações um pouco mais de 24 horas incomunicável. Embarquei em Luanda e o avião fez nova escala técnica na Ilha do Sal. Também ali a PIDE me esperava e queria prender-me enquanto o avião lá estivesse (2 horas pelo menos). O Comandante da Força Aérea mais uma vez intercedeu por mim respondendo, obstinado, aos PIDE de que eu não teria hipóteses de fugir de uma ilha. 

Chegando a Lisboa, na António Maria Cardoso, limitaram-se a assinar um auto em que me fixava a residência ao Concelho de Almada. Afinal, a entrega ao Tribunal de Aplicação de Penas e posterior condenação de 3 anos de prisão revelou-se um "bluff" do Sr. Sub-Director da Vila Algarve. 

Desde 1962 portanto que não visitei a Vila Algarve. Milhares de outros o fizeram. Milhares de outros ali foram torturados. Milhares de outros ali perderam a sua condição humana. E foi em nome do Povo Português que o fizeram.E foi em nome do Povo Português que se torturou José Craveirinha que escolheu precisamente o Português para literariamente se exprimir. 

A Vila Algarve é uma vivenda que certamente muitos moçambicanos não esquecerão. 

Mas bom seria que a Vila Algarve e o que lá dentro se passou chegue ao conhecimento dos portugueses e não caia no esquecimento."


JVR

Ligada ou desligada?


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Que eu tenho andado meio desligada do mundo e das politicas e do que se passa no nosso país e não só, é uma verdade. A televisão essa, nas ultimas três semanas foi ligada à hora do telejornal ou jornal da noite umas poucas vezes apenas ao contrário do que até aí acontecia.
Não é que não me interesse e que não me continue a revoltar com as políticas deste país e do mundo, não é que me passe ao lado, parece-me apenas que existem coisas mais importantes. Continuo a manter-me informada sim, mas de outra forma. E afinal, há coisas mais importantes na vida que uma televisão ligada...

Mas desafiei-me. Alto e parou tudo que também não podia ser assim! Há uns dias liguei, prestei a atenção que prestava. 
Ora no meu país tudo na mesma e défice, impostos, crise, dívida, troika e greves. Nada de novo, tudo na mesma, o governo não caiu (ainda) e o Cavaco continua adormecido por parte incerta e os trabalhadores da CP e do ML continuam a fazer greves porque os sindicatos lhes pagam os dias correspondentes e assim não há rombo no orçamento e sempre se gozam uns dias de "férias".

Em rodapé, porém, chama-me à atenção uma suposta polémica com a Isabel Jonet, presidente do Banco Nacional Contra a Fome. Chamou-me a tenção. Investiguei, ouvi as declarações proferidas num qualquer programa da SIC Notícias. E não me chocou, confesso, ao contrário de uns quantos milhares de pessoas.
O que me choca é que exista quem fique chocado...

Frases como, os portugueses vão ter de aprender a viver com menos ou reaprender a viver mais pobres porque vivíamos muito acima das nossas possibilidades. É mentira? Quantos foram os que se embrenharam nas redes dos créditos só para ter um carro muita potente e televisões tipo ecrã de cinema e casas do tamanho de castelos?
Que é idiota deixar a torneira a correr água enquanto se lava os dentes. Então mas mas mas... Não é?.. Isso é poupar, que mais não seja ser ecológico... 
Que é estúpido (digo eu) dar um bilhete para um concerto quando se pode aproveitar esse dinheiro para tirar uma radiografia? Quantas são as pessoas que adiam os seus exames médicos por serem caros e que depois para não ouvirem o choramingar dos filhos os entopem com bilhetes para os Rock in Rio, Sudoestes e concertos das Madonnas e JLos e daqueles One Direction? É mentira?! Estão sempre cheios a abarrotar e esgotados em horas!
Que há muitos portugueses que vivem muito acima das suas possibilidades? E não é?... Os centros comerciais e os jogos da bola continuam a ver-se cheios, os concertos, as Fnacs...
Que se não há dinheiro para comer bifes todos os dias não se podem comer bifes todos os dias.

Onde é que isto é chocante? 
Abjecto é ouvir muitos alguéns dizer que deixarão de doar para o BNLF por causa das declarações que a senhora fez. 
Deixem de lado as hipocrisias que há tempos quando a senhora ganhou o prémio Direitos Humanos em 2005 todos lhe agraciaram o trabalho.
Deixem de lado as críticas que alguns daqueles que usufruem do Banco Alimentar aparecem  bem montados na viatura topo de gama que lhes custa vender porque assim mantém algum status e provavelmente são daqueles que contam tostão a tostão mas a quem não "custa" dar o bilhete para o tal concerto ou para os copos à 6ª à noite ou para uma noite de cinema.

Independentemente do estado do país e de quem governa e dos lobys bancários e concertações, parece-me a mim que há muito português se tornou naquele menino mimado a quem deram tudo em determinada altura da sua infância e que de repente deixaram de poder dar. Se revolta e se queremos a vida boa? Claro que sim. Mas às vezes é preciso mais que cartões de crédito e contas ordenado, é preciso saber definir prioridades, reaprender a vier com o que se tem na realidade e não contar com o que não se tem. Nem tudo é dado de mão beijada e nem tudo na vida é fácil. Desengane-se quem acha que só há vantagens...

Quase que apetece dizer às vozes criticas que unam as suas vozes em prol de alguma coisa mais interessante, que unam as suas forças para lutar por um país digno que proporcione oportunidades iguais para todos...
Mas não direi, Cada um é como cada qual. Todos temos opiniões diferentes e ainda bem se não isto seria uma monotonia...

Eu cá por mim, manterei a televisão desligada.

Faz hoje duas semanas...


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... que todos os palhaços do mundo te choraram. Faz hoje duas semanas que te foste embora sem avisar. Sim, ainda estou na fase de contar os dias, as semanas, as horas, de pensar o que ainda estavas a fazer há um mês atrás, porque ainda há trinta dias tu estavas aqui a moer-me o juízo.
Sei que não te tenho chorado por estes dias, mas acho que também não era isso que tu ias querer e que me chamarias nomes se me visses de olhos inchados. Mas que raio, sinto a tua falta e escrever-te ainda é difícil, as lágrimas têm a tendência para aparecer, o coração como que mirra, o vazio aumenta.
Sei que não te tenho chorado por estes dias, mas para mim, ainda, foste a Espanha ter com a tua Pepa e retornas logo mais à noite cheio de armas e bagagens como era costume fazeres ao Domingo...
Mas não voltas. E tenho de me habituar a isso. Tenho de formar a ideia de que embora me pareça estar a viver num sonho e num mundo que não me pertence, tu não voltarás... E sabes? Essa ideia de cada vez que se forma, dói, dilacera.
O tempo, esse, diz-se que cura tudo e que vem a saudade depois. Mas eu já tinha saudades tuas, do que fomos e não fomos do que não vivemos e não dissemos. E agora? O que é que eu faço com isso, consegues-me dizer?!
Tu andas por aí como saltimbanco que eras a gargalhar de um lado para o outro com o pai, os avós, os teus meninos e nós aqui?! Temos de tentar arranjar um lugar para a dor? Para a saudade? Temos de esquecer que na manhã de dia 21 de Outubro de 2012 ainda estavas bem e falavas e tudo se ia resolver, tudo ia correr bem! Eu disse-te que tudo ia correr bem. Eu Disse-te Que Tudo Se Ia Resolver Caramba!
Acariciei-te a face ainda morna, a mão ainda pulsante, a perna como o tinha feito na noite anterior, beijei-te a testa já fria e pedi-te que esperasses pelo J. antes de ires. E tu esperaste. A cada palavra que te dirigia, a tua pulsação baixa subia. Disse que te amava, que não queria que fosses, pedi-te desculpa e que mais uma vez, tudo ia correr bem. E não correu... Não para nós que cá ficamos e que não sabemos o que fazer com este sentimento que nos invade.. Se tu soubesses a falta que cá fazes não te tinhas ido embora (desculpa o egoísmo)...
Sinto a tua falta quando ainda acordo a meio da noite para ver se estás bem, nas mais pequenas coisas e quero que voltes a bater com a porta aqui do lado e toques aquelas musicas que me aborreciam e espalhes migalhas por todo o lado e deixes tudo desarrumado à tua passagem...
Só quero que voltes porque alguém nos mentiu e não tivemos todo o tempo do mundo e isto dói muito... Vá, eu sei que estou a ser uma menina mimada outra vez, mas eu só quero o meu irmão mais velho de volta, ser a do meio outra vez, receber um abraço apertado teu e ter tempo.
Ter... tempo.