Archive for fevereiro 2013

Lá por casa...


.

... éramos cinco. Destes cinco, somos três irmãos. Primeiro o Zé, depois vim eu, e o J. que quis chegar quase sem avisar uns anos depois.
Lá por casa, a vida não foi fácil, não haviam excessos. O desemprego espreitava, os ordenados em atraso também teimavam em ameaçar. A fortuna insistia em escapar. 
Lá por casa, nunca passámos fome, nunca nos faltou um prato em cima da mesa, mesmo quando às vezes a comida fosse meio que inventada e esticada.
Lá em casa, nunca nos faltou que vestir, que calçar, nunca houveram as marcas que nos eram apetecidas.
Lá em casa, quando havia para um, havia para todos. Quando não havia para um, não havia para nenhum.

Lá em casa, de coração partido, os nossos caprichos e desejos raramente eram satisfeitos. E foram alguns... Quantas vezes aqueles chapéus de chuva de chocolate ficaram por comer, pastilhas que ficaram por rebentar, sugus por engolir, bonecos por gozar. Quantas foram as vezes que pedinchámos e tantas foram as vezes que entendemos que o dinheiro era preciso para outras coisas mais importantes. Crescemos todos rápido demais tendo-no sido dadas responsabilidades que não eram nossas cedo demais.

Mas nunca esquecemos. O que era para uns era para todos. 
Lá em casa, éramos três, lá em casa a vida nem sempre foi fácil. Lá em casa, sempre foi tudo dividido por três. 
Lá em casa, ainda hoje, é tudo dividido, já não por três, mas infelizmente, por dois.

E faz-me confusão cá por dentro que, em outras casas, em outras mentes, isto não funcione assim. Que exista gentinha, de mente tão tacanha, que seja capaz de presentear uns e não presentear outros porque sim, porque não, porque não gosta, porque lhes apetece. No meu mundinho normal, isso, é feio. Não se faz. É de gente pequenina sem eira nem beira.

Lá por casa, éramos cinco. Três irmãos. E sempre foi tudo dividido.
O que havia para uns, havia para todos.