Archive for 2014

Viver de novo


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"Um artista que deixa de produzir arte está a cometer suicídio emocional. Sai do sofá, e recomeça a pintar."

E encaixa que nem uma luva. 
Se calhar foi mesmo isso que me aconteceu. Cometi suicídio emocional todos os dias durante alguns largos tempos...
Quando há já dezasseis anos escolhi, quase à força depois de uma saída de cabeça erguida de um Conservatório ainda conservador, enveredar pelo campo das telecomunicações, decidi, como em tudo, que haveria de dar tudo de mim. O meu máximo e mais alguma coisa que pudesse dar. Nem sempre o soube fazer, nem sempre agi da melhor forma com que me rodeava, nem sempre terei sido a pessoa mais correcta. Mas era a única forma que sabia ser, que sabia estar. Não tinha nenhuma outra, nem sabia tampouco que essa seria a errada. Levei algum tempo a descobrir e sei, que pelo caminho, magoei muitas pessoas com quem lidei diariamente e a quem, hoje, peço desculpa, se ainda adiantar.
Até àquele Dezembro, a minha vida sempre havia sido ladeada de cores e tintas e pincéis e papéis fotográficos, uns dias tintas escuras, outras claras, por vezes neutras, instáveis, tal como eu. Por um motivo, por outro, fui adiando o sonho, erradamente. Fui aos poucos desistindo do que me fazia sentir bem e una comigo, do que na verdade me fazia, feliz. Deixei os tubos de tinta e as garrafas de terebentina, arrumei os pincéis na maleta, fechei o cavalinho e passei a encher os dias com folhas de excel e com preocupações que não me pertenciam.
Cometi suicídio emocional, mas aos poucos, começo a ressuscitar.

Houve um tempo...


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... em que achava que a vida durava para sempre. Que era invencível e que nada nem ninguém me podiam acertar. Que era muita forte e que de uma maneira ou de outra conseguiria resistir a todas as tempestades com que a tal vida me acertasse. Tentava fugir e andar pelos espaços da chuva saindo molhada.
Houve um tempo que achei que a vida durava para sempre. Que todos durariam para sempre e que estariam sempre ao pé de mim. E que por isso, eu poderia usar e abusar das palavras à minha maneira meio rebelde. Atingi e magoei com muitas dessas palavras, certamente, muita gente. 
Houve um tempo, que achei que a vida se vivia sozinha, que não precisava de ninguém, que só eu chegava.
Houve um tempo que não há mais.
A vida corre por ela, sozinha sem precisar muito da nossa ajuda, o tempo passa, ensina-nos nem sempre da melhor maneira, e quando por fim, nos vemos na dor da solidão, acreditamos, enfim, que o estar só afinal não é a melhor coisa do mundo. Que, muito embora precisemos do nosso espaço, do nosso silêncio, também amamos e podemos ser amados, que precisamos de uma mão que nos ajude a levantar, de alguém que nos diga o quão importantes somos.
A vida não dura para sempre e nem para sempre estão por cá as pessoas e os momentos que tomamos por garantidos. A vida não é escapar pelos espaços da chuva e nem achar que se pode fugir das tempestades para sempre. A vida é a vida, cair e levantar, dar a mão e deixar que no-la deem. A vida, como alguém disse, faz-se caminhando, um dia de cada vez, e nunca correndo. Faz-se apreciando os pequenos momentos prazerosos com que somos brindados, sejam eles um dia de sol ou um pássaro que chilreia numa árvore despida ou a luz de um relâmpago que faz ecoar uma trovoada ao longe.
Nada é garantido. Nada é nosso. 
Temos o amor que sentimos a quem queremos bem e é isso, nada mais importa.
O tempo em que achei que a vida eram coisas e que era preciso ter pressa, passou há muito e há muito que descobri que o importante, afinal, são as pessoas, sou eu, com calma, serenidade e paz. Fazer e estar o melhor que sabemos, como sabemos. Um dia de cada vez. Mesmo quando custa e tenhamos pressa.
Afinal, vida não espera e o tempo não perdoa.