Diz-se que a nossa sociedade é uma sociedade cruel.
Diz-se que hoje em dia os idosos deixaram de fazer parte das famílias.
Diz-se que a solidão hoje, é uma coisa normal.
Escrevi por aqui há uns dias que a velhotes não resisto, e por isso, e mais, a notícia de se ter descoberto uma senhora idosa que morreu sozinha, em sua casa, nove anos depois, é assustador.
É terrífica a ideia de viver numa sociedade em que ninguém se preocupa com nada nem ninguém, é terrível a ideia de ser um fardo na vida de alguém, é insustentável a ideia de pensar que esta organização em que vivemos consegue ser tão desonesta e hipócrita e, tão, tão mal agradecida.
Quando se desprezam aqueles que nos criaram, aqueles que muitas vezes deles abdicaram em prol de quem lhes era mais querido, só podemos concluir que fazemos parte de um Mundo Realmente Muito Anormal e de uma sociedade cada vez mais amorfa que tem demasiadas pontas soltas.
Triste é que no caso da Dona Augusta, apenas uma, uma, pessoa se tenha preocupado com o seu bem estar. E que várias pessoas apareçam sem dar a cara alegando ser familiares.
Triste e repugnante é saber que existem no mundo milhões de pessoas aprisionadas em suas casas que podem ter o final da Dona Augusta, outros tantos milhões como aqueles que agora correm atrás de uma suposta herança, e apenas uns poucos como a vizinha que se preocupou e se esforçou e que fez tudo por tudo por pura amizade.
Triste e revoltante é ter um estado que de social não tem rigorosamente nada e que alega ter tido bom senso e um sentido de zelo no tratamento da situação que culminou na descoberta da idosa.
Isto é uma parte do nosso mundo. Onde tudo vai ficar exactamente na mesma, onde as consciências vão pesar mas nada fazer e onde as Augustas só vão ser lembradas e defendidas enquanto a comunicação social falar do caso, onde o estado vai, mais uma vez, sair impune da canalhice que cometeu.
Isto envergonha-me. Repugna-me e enoja-me.
