Muda, surda e cega


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Num mundo normal, não deveria ser preciso chegarem-se a extremos.

Já no nosso é preciso fazer um esforço para ficar muda e não mandar alguém passear ao bilhar grande ou ver se está a chover, surda para não ouvir as barbaridades que se escutam e se tentam não assimilar, cega para não olhar para a estupidez que muitas vezes me rodeia.

O nosso país é rei no reino das lamentações. Julgo até, por vezes, que este deveria ter sido o nome que o Fundador deveria ter dado. Em vez de Condado Portucalense, Condado da Lamentação. Mas na altura as coisas eram diferentes, lutava-se por aquilo em que se acreditava, acreditava-se. Deixavam-se os queixumes para trás das costas e seguia-se em frente e Portucalense parecia um bom nome...

Hoje, estar parado numa fila numa qualquer repartição, aguardar num balcão de café, estar por estar numa qualquer esplanada, praia ou afins, é um atentado.

Experimentem. Tenham a experiência da natureza portuguesa - o reclamar.

O povo refila porque está sol e ai que incadeia, porque está de chuva e ah Jesus que molha e não se trouxe o chapéu de chuva. Reclama porque está frio e saca do casaco, do calor porque não pode andar despido, porque o chão demasiado limpo e nada do que parece é,porque está sujo e as pessoas são uma porcas. Porque se fala demais quando se diz de menos, porque pouco se fala quando há muito para dizer. Porque está muita gente ou porque não está ninguém. A água está fria ou muito quente nunca no meio termo.

São considerações, vá, digamos que parvas, mas que a maioria das pessoas não consegue evitar. E não será que deviam?

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