Carta ao Estado, parte II


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Eu juro que tenho evitado ao máximo escrever por aqui sobre as crises que assolam o nosso país e, se Deus quiser, esta há-de ser a última vez que o faço.
Evito por vários motivos, mas principalmente porque ele há coisas que me ultrapassam o espírito e, muito honestamente, me tiram do sério.
São exemplos disso a inércia e a indiferença das pessoas quando os males só tocam os outros ou a modinha do se há quem refile porque é que eu me hei-de mexer e sequer refilar. 
E isto, aborrece-me.
Chateia-me que muito do nosso povo não se mexa nem se importe com o facto de o governo, que uma maioria entre a minoria escolheu, tomar medidas extraordinariamente chocantes e as transmita com o discurso do coitadinho.
Chateia-me que a grande maioria das pessoas deste país tenha vivido 30 anos acima das suas possibilidades e que agora se lamente qual miúdo mimado a quem os pais de repente mandam trabalhar se quiser manter os vicios.

Portanto, posso-me dar ao luxo de dizer ao nosso caro Estado Português:
Que trabalho há já uns bons ou não, 17 anos, dos quais 3 a receber por baixo da mesa porque ao patrão não dava jeito que as finanças soubessem que eu por lá andava, e outros 14 a fazer os meus descontos a tempo e a horas, tanto para IRS como para a Segurança Social. Destes 14, nunca meti um dia de baixa e os dias de faltas por doença contam-se em duas mãos.

Que não gasto um tostão aos hospitais públicos, se preciso de um médico prefiro um privado que me trate e bem do que a uma maioria carniceira que não nos olha enquanto nos passa a sentença.
No entanto, despretenciosamente, ofereço do meu sangue sem receber nada em troca, àqueles centros hospitalares. Nem sequer faço usufruto das taxas moderadoras que até agora me eram oferecidas.

Que não tenho casa própria, vivo em casa da mãe. Sim, ando na casa dos 30 e não na minha. Mas se tivesse ido na conversa dos bancos talvez hoje tivesse um castelo hipotecado e quiçá constasse numa lista negra de um banco qualquer.

Que tenho um cartão de débito, uma conta ordenado e um cartão de crédito que junto fazem mais de três vezes o que ganho num mês. Os dois últimos só são usados em caso de emergência e, garanto, têm sido poucas as vezes.

Que pedi crédito ao banco, três vezes. Duas para carro, outra para obras. Sempre os paguei desse por onde desse. Nunca devi nada a ninguém.

Que o meu carro faz 10 anos para o ano que vem e o motor está como novo porque a gasolina ao preço que está, não dá para o esticanço nem para grandes viagens. O meu carro tem amolgadelas que algum descuidado lhe ofereceu e não, não tenho dinheiro para o por no bate chapas. Custou-me a pagá-lo, mas paguei-o sem nunca ficar a dever nada a ninguém.


E que enfim, na casa dos meus pais sempre se disse que quando não há dinheiro, não há vícios e nada a mais que não precisa de haver. Houve uma educação não só de poupança, mas de racionalização. Nunca viver acima das possibilidades.


E não deverias tu, o nosso estado, tu, as nossas câmaras municipais pensar da mesma forma? 
Não acham vocês, estado português, bancos nacionais, que deveriam ter educado também, as inúmeras famílias deste país a ter pensado nisto um pouco mais cedo?


Se tudo correr bem, esta é a última vez que escrevo sobre este assunto.

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