Momentos...


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Há momentos da nossa infância que guardamos para sempre na nossa memória e que fazem de nós aquilo que somos mais tarde.

Há cheiros que guardamos para sempre nas nossas lembranças e que sempre que o sentimos voltamos ao passado.

Felizmente, tenho muitos. Armação de Pera, Portimão, Caldas da Rainha, Salir do Porto, Nazaré, S. Martinho do Porto, Figueira da Foz, Lisboa, Miratejo. Casa.

De cada vez que me aproximo daquela mitica estação de comboios das Caldas da Rainha, não esqueço o odor do óleo queimado da automotora que nos levava até S. Martinho do Porto. E lá, o cheiro do pão acabado de fazer na padaria da esquina onde comprávamos o pão e o fiambre prá sandocha. O rebolar duna abaixo e acabar dentro de água. E o retornar a casa depois da estafa, a espera na estação colocando caricas de Orangina e latas de green sands nos carris por onde havia de passar aquela automotora com destino ao Bombarral.

O cheiro da terra molhada depois dos banhos de mangueira no quintal.

Grande parte dos verões da minha infância foram passados naquela cidade. Nem sempre a gosto, em boa verdade, achava que era uma seca.

A casa cheirava a mofo de estar fechada quase um ano inteiro, faltavam os amigos lá longe, os meus brinquedos. Mas havia uma árvore para subir, baloiço para baloiçar, um antepassado de playstation, bicicleta para ir de encontro a fontes e acabar espatifada, bota Botilde para saltitar até mais não, trotinete, skate para torcer um pé em chão de cimento e pouco mais. E haviam os passeios. - "Quem saiu com o avô nunca se prejudicou"! ouvia eu, e lá calhava um bolo da pastelaria Machado, um gelado na Venezia, um passeio semanal a um lugar surpresa.

Tínhamos almoços e jantares no nosso quintal com a tv salora lá fora onde a mosquitagem nos melgava e costumavam ter um final, vá!, não muito feliz! Ficava no ar o cheiro do jaquinzinho bem frito, do melão bem maduro que sorvia em tom de guludice e da ameixa que crescia já madura na nossa árvore.
O cheiro do Natal, das, poucas, festas de aniverário, das tardes bem passadas. Do Pai, do Avô, da Avó. Da casa vazia. Da saudade.
De momentos que nunca mais voltam mas que tenho comigo sempre. Para sempre.

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