Para ti, Zé


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Ando há uns dias a pensar se te haveria de escrever, se não, e há outros tantos a pensar no que te quero dizer e sequer se deveria vir aqui dizer-to.
O que te quero dizer, é nada. Já to disse nestes cinco meses de monólogo e o mais importante, sussurrei-te ao ouvido antes de te ires embora.
Mas, à semelhança do orgulho que sentiste por mim quando, entre gaguez e nervoso, balbuciei umas palavras na Terra do Kavaravaque numa tentativa falhada de actuação, também eu hoje te bato palmas e também eu hoje sinto um orgulho que vai até ao infinito e mais além.

Por entre o “papagaio loiro, de bico dourado” e “parecia um leão, leão, leão”, o “enquanto esperava no fundo da rua” e a derradeira música de elevador do Bruno Mars que ouvimos da última vez que andámos de carro juntos, vivemos uma história, nem sempre bonita e nem como nos contos que o avô nos contava, mas cheia de amor. Disso eu tenho a certeza. 

Tu não foste fácil e agora posso-to dizer sem sofrer as consequências. Tu foste casmurro e um teimoso do pior.
Mas também um doce. Um docinho do céu que, quando queria, era do mais lambuzento de amor que havia.
Na nossa história, tu foste o cowboy e o ladrão, o vilão e o herói. No melhor, e no pior.
Quando me amparavas na subida à árvore na casa da avó e quando me defendias dos meninos grandes no infantário – herói;
Quando me perseguias pela casa ameaçando a viva voz que ias contar a todos de quem gostava porque me tinhas lido o diário - vilão;
Quando fazias que tocavas na vassoura aquelas músicas Iron Maiden na sala lá de casa e quando usurpavas o spectrum só para ti - ladrão;
Quando organizávamos os nossos teatros e, neles, éramos as estrelas principais e cantávamos e dançávamos ao som da nossa imaginação - cowboy.

Zangávamo-nos tão depressa como fazíamos as pazes. Fomos os melhores amigos entre corridas de carros, brincadeiras de peão e construções de lego, mesmo quando arrancavas a cabeça à Nancy.
E crescemos.
E algures ali no tempo a vida arrastou-nos os sonhos. Tivemos de lidar com o ritmo alucinante com que fomos obrigados a viver. E deixámos de ser crianças. A nossa cumplicidade e ingenuidade perdeu-se. Nós perdemo-nos algures ali no tempo, mas aprendi a amar-te do meu jeito torto, esquisito e meio distante, mesmo que nem sempre o tenha conseguido demonstrar.
Mas, encontrámo-nos mais tarde. Pelo meio, demos as nossas cabeçadas, discutimos muito, gritámos como se não houvesse amanhã, andámos à bulha, sofremos.
No fim, no olhar que trocámos, talvez tenhamos descoberto que eu nunca deixei de ser a fada e tu o palhaço, que sempre tínhamos sido enfim, só nós dois.

Foste-te embora, e agora fazes-me falta. Faz-me falta a cumplicidade que perdemos, as conversas que não tivemos e “aquele” abraço que nunca demos.

Mas quero que saibas, eu serei sempre a do meio e tu serás sempre o mais velho e, gozarei contigo quando fizeres quarenta, da mesma forma que gargalhei quando te dei os parabéns aos 38. Só não viveremos mais estórias de encantar os dois…

Fazes-me falta mano velho.
Estejas tu onde estiveres, aqui no meio, ao meu lado, em todos nós nas estrelas que soubeste espalhar, ao pé do pai e dos avós ou em lado nenhum, peço-te, guarda-me contigo assim como te guardo comigo todos os dias.
-Te. Sempre. Vezes infinitos e mais além.

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