Fazes-me falta...


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Diz que hoje é o teu dia.
Mas mentem. O teu dia é todos os dias. Porque és eu, fazes parte de mim, porque não há um dia em que não me lembre de ti e da falta que me fazes.

Coragem, filha, costumavas dizer, lembras-te? E muito embora ainda hoje essa coragem muitas vezes me falhe, não há vez nenhuma que não me digas essas palavras todos os dias de manhã.

Não foste o pai perfeito, é verdade. Foste um homem.

Com todas as tuas falhas, faltas e defeitos e qualidades.
Foste um errante na jornada da vida e sempre lutaste por fazer cumprir aquilo em que acreditaste.
Falharam-te as forças, desististe em muitos momentos. Foste um homem.

Fizeram-te menino-homem que teve de crescer demasiado rápido. Fizeram-te sonhador. Lutaste obrigado nas guerras que te eram alheias, carregaste armas que não te pertenciam. Nas tuas batalhas nem sempre foste vencedor. Foste um homem.

Prenderam-te, torturam-te e em momento algum tu cedeste. Nem sempre soubeste afastar os demónios que te fizeram carregar. Viveste um dia de cada vez porque o futuro sempre pareceu não chegar nunca. Foste um homem com "H" maiúsculo.

Nem sempre soubeste mostrar os teus afectos, nem sempre soubeste ser o pai dos filmes cor de rosa, mas ensinaste-me a ser, a crescer, passaste-me o teu existir, falavas-me com o teu silêncio. Fizeste-me sofrer, fizeste-me feliz. E isso, só por si, agora, chega.

E no fim, no último dia, no último segundo, sem necessidade para tal, agradeceste-me em voz alta mas os teus olhos falaram muito mais, como que se soubesses que aquele momento era o nosso último. Neguei-te o obrigado, beijei-te, passei-te a mão pla face e saí sem adivinhar.

Foste simplesmente o meu Pai. E amo-te por isso.
Obrigada eu.

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