Não é meia noite ainda.
Os tambores rufam lá fora a par de alguns foguetes que insistem em ser lançados em noite chuvosa fazendo ritmo com alguma música irritante que canta ao som da chuva.
O J., prostrado com a tua falta.
A tua P. deixou-me agora chorosa com uma mensagem simples que me enviou.
A mãe lá está. A tentar.
E eu aqui. A tentar ser forte todos os dias e lidar com o não estares. A lembrar a falta que me fazes, a tua preocupação de há um ano em querer passar o ano connosco e não conseguiste chegar a tempo. Mas ligaste, como ligavas sempre. E do outro lado a tua voz sempre alegre e feliz que hoje não se ouve no telefone cá de casa.
Lembro-me do que me abraçaste na primeira passagem que fizemos sem o Pai. Em Cacilhas, para ser diferente e por insistência tua, juntos os três assistimos ao fogo de artificio manhoso de Lisboa. E abraçá-mo-nos no final como se aquele fosse o nosso primeiro e último momento.
Não sou de ligar a passagens de ano desde que a avó se foi embora. Não sou de achar que por se mudar um dia no calendário a vida muda também, porque essa, não precisa de datas, nem de festas nem de fogos coloridos. Às vezes, a vontade basta. A vontade de mudar, de querer ser diferente, de querer aprender com os próprios erros e dos outros. De fazer do país, do mundo, um sitio diferente.
Não sou de ligar a passagens de ano, deixam-me triste. Às zero horas, recordo-vos a todos que partiram e as saudades que tenho e tento, juro que tento, celebrar quem cá está.
Não sou de ligar a passagens de ano, porque a seguir ao dia 31 de Dezembro vem o primeiro de Janeiro, como a seguir ao 31 de Março vem o primeiro de Abril.
Porque qualquer dia é um bom dia para se mudar o mundo. O país. A vida. Desde que se acredite que se é capaz, que se tem a força. Desde que se mantenha a esperança e se lute para manter a luz acesa.
Não sou de ligar a passagens de ano, mas, peço-vos, estejam onde estiverem, cerquem-nos com a vossa luz, tragam-nos paz e brindem connosco.
